Fonte - Valor Econômico
A questão atormenta inúmeras empresas. Uma onda de forte apelo ambiental - e social - nos últimos anos levou várias companhias, entre bancos, operadoras de telefonia e indústrias em geral, a trocarem pelo reciclado seus formulários, catálogos, publicações, extratos, memorandos, documentos e afins que antes eram impressos ou escritos em papel branco. A motivação pelo papel reciclado é nobre: menos resíduos jogados nos lixões e aterros sanitários. Recuperados, os papéis são reintroduzidos na cadeia de produção de papéis para imprimir e escrever.
Mas uma avaliação mais ampla do tema está mudando a forma como as empresas encaram o papel branco, tirando parte dos mitos que o reciclado acabou recebendo."Somos a favor da reciclagem, mas o que temos feito nos últimos tempos é mostrar aos clientes as qualidades do papel branco que segue excelentes critérios de sustentabilidade", diz Robinson Cannaval, gerente de marketing de impressão e conversão da International Paper (IP), maior fabricante de papel dos EUA.
"É um engodo quem acha que ao utilizar o reciclado está salvando uma árvore na Amazônia. Na Europa, isso talvez seja verdade, mas isso não acontece aqui", afirma Cannaval. A IP tem uma linha de produção de 25 mil toneladas de reciclados por ano em sua fábrica de Mogi Guaçu (SP) com a marca ChamexEco.
Os papéis reciclados são compostos de uma mistura entre as aparas de pós-consumo (já utilizadas pelo consumidor e recolhido, por exemplo, por cooperativas formadas por catadores) e as aparas pré-consumo (refugo ou perda dos produtos não usados nas gráficas). Essa relação varia entre 25% a 30% de pós-consumo, e o restante de pré-consumo. O preço do reciclado, que chegou a ser 20% a 30% maior do que o branco quando lançado no início da década, praticamente igualou-se. Apesar disso, o reciclado representa não mais do que 7% da produção nacional de papel para imprimir e escrever, em torno de 1,2 milhão de toneladas.
Isso porque os fabricantes não conseguem atender toda a demanda por escassez de matéria-prima - faltam aparas de boa qualidade. A realidade é diferente da que acontece nos EUA e Europa. Lá, os papéis reciclados para imprimir e escrever, coletados em sua maioria pelas famílias e empresas, são fabricadas com aparas de melhor qualidade. São mais brancos do que os convencionalmente encontrados no Brasil cuja aparência é ligeiramente bege de modo a disfarçar as imperfeições.
Para o papel reciclado do Brasil ficar igual ao similar estrangeiro, isso significa um maior consumo de energia, água e químicos para bem tratá-los e convertê-los ao processo de produção. "Do jeito que é hoje, a produção de papel reciclado para imprimir e escrever no Brasil não traz vantagem do ponto de vista ambiental", diz o gerente geral de impressão e conversão da IP, Antonio Gimenez.
Segundo ele, a alta demanda por este tipo de papel acabou criando distorção, gerando uma competição sem igual pelas aparas que antes tinham destino a produção de embalagens ou papéis sanitários - produtos que exigem tratamentos inferiores do que os papéis de imprimir e escrever para readequá-los ao ciclo de produção.
Um estudo realizado pelo Laboratório de Química, Celulose e Energia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo, solicitado pela IP, mostra que, no processo industrial, se gasta mais energia, água e químicos para produzir o papel reciclado do que fazer o mesmo processo utilizando fibras virgens.
Apesar de o estudo fazer uma comparação com uma realidade inexistente no país (utiliza-se como parâmetro um papel com 100% de aparas pós-consumo), o estudo, coordenado pelo professor Francides Gomes da Silva Júnior, indica que o consumo de água no reciclado chega a 64 metros cúbicos por tonelada - acima dos 10 metros cúbicos do papel de consumo do papel de fibra virgem. Se a fábrica de papel for integrada a uma unidade de produção de celulose, consome-se mais 35 metros cúbicos de água - ainda assim abaixo da produção do reciclado.
A fase mais complicada para a produção do reciclado, segundo o estudo, está no processo de destintamento das aparas pós-consumo. Nesta etapa, são usados diversos produtos químicos - peróxido de hidrogênio, hidróxido de sódio e enzimas - para remover as tintas impressas ou escritas no papel. O resultado é uma geração de resíduos sólidos, incluindo metais pesados, que precisam ser tratados. Como resultado, a polpa - a matéria-prima a ser reaproveitada como papel reciclado - é menos branca, com características inferiores de aparência, resistência e desempenho em relação ao papel branco.
Conta ainda a favor do papel branco produzido a partir de florestas plantadas o fato de as árvores capturarem mais gás carbônico da atmosfera. No caso do reciclado, esse seqüestro já aconteceu. Para Robinson Cannaval, da IP, a questão é escolher o papel conforme ao tipo de uso, evitando os excessos e desperdícios. "Se a empresa deseja imprimir um código de barras, é melhor optar por um papel branco porque se terá um maior contraste. Se for um reciclado, a empresa teria de pintar uma tarja branca para se obter o mesmo resultado. É um gasto a mais em tinta."
Nenhum comentário:
Postar um comentário